

Intervir Requer Certa
BREVIDADE
Intervir requer certa brevidade foi um projeto de pesquisa e criação artística realizado na Praça Mauá, na cidade do Rio de Janeiro, em dois momentos: fevereiro de 2016 e maio de 2018. Ao propor um diálogo entre os pensamentos emergentes de uma ação performativa e esta como metodologia em si, questionávamos sobre o que pode esse corpo em performance, em movimento, imerso em uma experiência em um território específico. Como nós, artistas, podemos a partir de pesquisas performativas contribuir em projetos transdisciplinares, compartilhando um conhecimento que parte de um corpo em movimento em busca da emergência de algo que só pode se dar no e a partir do corpo.
Fevereiro de 2016 - Praça Mauá, Porto Maravilha, RJ
Praça Mauá | Rio de Janeiro | RJ
fotos: Walmeri Ribeiro | 2016
No primeiro dia de performance, essas duas imagens, tão contrastantes quanto toda a realidade presente neste território, me arrebatou.
De um lado, o corpo espontâneo, de um pai e seu filho, moradores do Morro da Providência, que nadam, em meio ao lixo flutuante, nas águas poluídas da baía de Guanabara. Do outro, o corpo institucionalizado dos funcionários do Museu, que, com equipamentos de proteção – diante do intenso tratamento dado às águas da Baía que são capturadas, despoluídas e reutilizadas para alimentar os espelhos d’água do Museu do Amanhã –, aspiram os resquícios da poluição, mantendo a limpeza e a limpidez dos espelhos que resfriam a estrutura do Museu.
Durante essa pesquisa performativa, muitos foram os dias em que me deparei com essas duas ações simultâneas. Me aproximei, conversei, conheci as pessoas, suas histórias de vida e as relações afetivas e institucionais com esse território sensível.
O sentimento de impotência frente a essa realidade e às questões locais e globais, apresentadas nessas duas imagens contrastantes, me levou inicialmente à pergunta-ação “O que vocês fariam em nosso lugar?”.
Essa era uma pergunta-título, uma provocação, para pensarmos sobre os modos de vida nas cidades onde vivemos, sobre os processos de transformação e apropriação e, sobretudo, sobre o sentimento de impotência que nos assola, nos paralisa, mas que, ao mesmo tempo, é capaz de nos mover, nos colocar em direção à construção de outros pensamentos, proposições, criações e ações.
Nesse momento, a cidade do Rio de Janeiro se preparava para receber os Jogos Olímpicos e passava por uma “transformação” de sua estrutura urbana. A sociedade, brasileira e internacional, acompanhava mais um processo de gentrificação. A olhos nus assistíamos à intensificação das – já tão acentuadas – diferenças sociais existentes na cidade. Acompanhávamos o crescimento dos índices de pobreza, favelização e, sobretudo, violência, enquanto a cidade ia se tornando uma “cidade inteligente”, preparada para receber milhões de turistas do mundo inteiro.
A região portuária, área de comércio de escravizados durante os séculos XVIII e XIX, abandonada durante todo o século XX, tornava-se, diante de seu projeto futurístico, o símbolo das Olimpíadas, o Porto Maravilha.
A grande questão ambiental daquele momento era a “despoluição” da baía de Guanabara, que receberia atletas internacionais em suas águas. A saúde dos atletas era o foco. Mas o que víamos (e vemos) diariamente foi (e continua sendo) o aumento dos índices de poluição e a total falta de preocupação com a saúde da população local e do meio ambiente em si.
Em meio à nossa pesquisa, vi a praça Mauá se tornando o palco das Olimpíadas. Baía cercada por arames “protetores”, palcos montados e milhões de pessoas de diferentes partes do mundo ocupando aquele pequeno e complexo território.
Assim como os moradores, abandonei esse território, temporariamente, levando comigo imagens, dados, sons e a certeza de que esta pesquisa estava apenas começando.
Maio de 2018 - Museu do Amanhã, Praça Mauá, Porto Maravilha, RJ
Dois anos depois. Ao receber um convite para realizar uma performance e participar do OpenLab Hiperorgânicos, que seria realizado no Museu do Amanhã, imediatamente essas duas imagens, perturbadoras e que me acompanharam durante todo esse tempo, tomaram a cena. Retorno, inicialmente sozinha, ao meu território de pesquisa-criação e performo!
Reencontro os garotos que via diariamente, em fevereiro de 2016, nadando nas águas da baía. Os convido para performarem comigo. Crio entre o meu corpo, protegido por equipamentos de proteção (macacão, botas e luvas), e o corpo desnudo, sem qualquer proteção, dos garotos-banhistas, um incômodo na “plateia” que ali assistia à ação. Juntos coletamos, em 200 tubos de ensaio, as águas poluídas da baía de Guanabara.
Praça Mauá | Rio de Janeiro | RJ | foto: NANO | 2018
Levo, diante da minha autoridade artística, a água coletada, assim como as contradições existentes nas imagens produzidas em fevereiro de 2016 e em maio de 2018, para dentro do Museu do Amanhã, um dos símbolos da “cidade inteligente”. Com elas, dados atualizados e comparativos da poluição dessas águas.
Praça Mauá | Rio de Janeiro | RJ | foto: NANO | 2018
Frente a uma plateia formada por artistas, pesquisadores, visitantes e funcionários do Museu, coloco em pauta uma discussão incômoda que, por um lado, provoca e enfatiza a nossa sensação de impotência, mas, por outro, nos faz pensar coletivamente em novas possibilidades de ação, caminhos e pesquisa e também novos campos de diálogo.
Intervir requer certa brevidade
Videoinstalação exposta no Museu do Amanhã como parte das ações realizadas no OpenLab | Hiperorgânicos
Curadoria: Guto Nóbrega e Malu Fragoso | Museu do Amanhã | Rio de Janeiro | 2018
Como o próprio título diz, intervir requer certa brevidade, pois não se trata de convencer, e sim de transmitir para “aqueles a quem isso possa afetar o que nos faz pensar, sentir, imaginar” (Stengers, 2015, p. 5).
Balizadas nas relações entre performance, corpo, experiência, percepção e sensorialidade, pesquisas performativas, como as que desenvolvo no projeto Territórios Sensíveis, demandam tempo, presença, permanência. Pois, a emergência da performance como metodologia de pesquisa muda o foco de um conhecimento objetivo para um mais processual, perspectivo, participante, colocando o conhecimento em movimento para a abertura de novas ideias, inputs e desdobramentos (Hadley, 2013).
O conhecimento, produzido por um corpo em movimento, dialoga e propõe outras perspectivas de criação e apresentação artística, mas, também, contribui para o surgimento de novos problemas, novos contextos, novos caminhos, insights, dialogando com outros campos de pesquisa para além das artes.
Pesquisas performativas são pesquisas-criações intrinsecamente experienciais (Haseman, 2006).
Assim, a proposta de ações como Intervir requer certa brevidade e outras, desenvolvidas em Territórios Sensíveis, não é analisar a realidade social ou apresentá-la teoricamente, mas, sim, intervir como ação para afetar e sermos afetados por ela em busca de novos conhecimentos, de possibilidades, da abordagem das questões emergentes dos territórios investigados e, ainda, contribuir, a partir do campo de estudos da performance, para discussões, ações, proposições e novas pesquisas-criações.
Em entrevista publicada no livro Politics of Affect, ao responder à pergunta de Arno Boehler sobre a questão de Spinoza, “Do you know what a body can do?”, o filósofo canadense Brian Massumi afirma: “O corpo tem poderes de improvisação e invenção que nós estamos apenas começando a investigar” (Massumi, 2015, p. 177).
Portanto, pensarmos um corpo em performance é pensarmos um corpo capaz de produzir conhecimento corporificado, ou seja, um corpo imbricado no tempo-espaço-território experienciado. Ou seja, tratamos aqui de um corpo em relação com o meio ambiente, de um corpo que se transforma em meio às constantes mudanças do ambiente ao qual está inserido. Um corpo em performance é um corpo em processo, assim como o conhecimento que emerge dele.
Intervir requer certa brevidade, foi, portanto, uma experiência performativa que, num primeiro momento, buscou ressaltar aspectos sensíveis desse território chamado “Porto Maravilha”. Quem são esses meninos? Quem eles representam nesta sociedade? Quais as ações das instituições que hoje compõem esse “Porto” junto à sociedade local? Quais as relações afetivas desses meninos e famílias inteiras com a baía de Guanabara?
Entretanto, esse corpo que performava protegido por um macacão impermeável amarelo estava completamente permeável ao contexto social e cultural desse território, às camadas de tempo e história circunscritas nessa pequena área denominada Porto Maravilha, que compõe a baía de Guanabara.
Ali ouvia os moradores e visitantes das águas, investigava as relações afetivas de cada um desses meninos com a baía de Guanabara e com o Rio de Janeiro, mas também enfrentava as forças institucionais “protetoras” do Museu do Amanhã, entre não poder performar nas águas dos espelhos, não poder expor as águas poluídas externamente, não poder misturá-las às águas limpas. Não! Era um ato de proteção a mim mesma?
Dessa experiência performativa, dividida em dois momentos, emergiu a certeza de que a força micropolítica da arte pode nos ajudar a enfrentar os tempos de urgência, nos colocando em um movimento contínuo em busca de novos modos de imaginar, sentir, intervir, afetar e, sobretudo, ser afetado. Mas nós, artistas, temos que estar atentos à construção das nossas narrativas, obras e ações. Assim como precisamos pensar sobre o que é produzir arte em tempos de urgência.
Todos esses paradoxos, ali vivenciados durante os dias do OpenLab, ganharam outra dimensão e desdobraram-se em um novo projeto a ser desenvolvido na baía de Guanabara, com diferentes comunidades, que traz como pergunta-título:
Como (sobre) viver no Antropoceno?
Emprego o conceito “Antropoceno” em consonância com o pensamento de Eduardo Viveiros de Castro, Isabelle Stengers, Bruno Latour, Kayla Anderson e Anna Tsing, trazendo para essa discussão a noção de crise, catástrofe, urgência e emergência.
Antropoceno não mais como uma referência a uma era geológica, como proposto por Paul Crutzen, mas sim às implicações das crises que estamos vivendo, uma crise que é climática, mas, sobretudo, política, social e humana. Ou, como afirmado pela artista e pesquisadora Kayla Anderson (2015), o Antropoceno é também uma crise cultural e, portanto, da imaginação.
Nesse sentido, a arte, com seu engajamento social, político, estético e, sobretudo, com a sua potência de intervir, gerando novas percepções e afetos sobre os modos de vida, possui um especial desafio neste contexto. E, nesse caminho, os estudos do corpo e da performance como metodologia de pesquisa-criação podem tornar-se um referencial epistemológico para os nossos tempos. Tempos de emergência!
O que emerge de uma pesquisa performativa em territórios específicos? Singularidades de cada território, singularidades dos modos de vida, das necessidades e das potencialidades de cada vilarejo, de cada cidade, de cada corpo que compõe esse território? Dados sensíveis? Modos de (sobre)vivência no Antropoceno?
Como diz Anna Tsing, “Nosso tempo é o Antropoceno, a era da perturbação humana. O Antropoceno é uma era de extinção em massa; não devemos esquecer. Mas o Antropoceno também é uma era de emergências. O que emergiu?” (Tsing, 2019, p. 23).
As consequências dessa “perturbação humana” podem ser sentidas em nossos corpos, em nosso dia a dia. Nós as vivenciamos nas ruas das cidades onde vivemos, ou por onde passamos. No entanto, não podemos deixar que a crise da imaginação paralise nossos corpos, nossa sensibilidade e nossa potência de agir.
É hora de devolver a pergunta: O que você faria em nosso lugar?
Realização
Apoio Institucional









