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De Mar a
MAR

Fluxos Transatlânticos Através do Açúcar

Rio de Janeiro e Ribeirão Preto | Brasil - Gotemburgo | Suécia, 2025

De Mar a Mar – Fluxos Transatlânticos Através do Açúcar compõe a rede internacional de colaboração de pesquisa e criação artística do projeto Os jogos do açúcar: novas perspectivas sobre a história colonial de Gotemburgo, vista através do manuseamento do açúcar, da artista e pesquisadora Cecilia Lagerström. 

Os jogos do açúcar investiga a história colonial de Gotemburgo, colocando as práticas das artes performativas em diálogo com o pensamento decolonial na investigação de uma série de territórios da cidade de Gotemburgo, na Suécia. O objetivo é criar novas narrativas, um "pluriverso" de perspectivas sobre a história colonial da cidade, com base no manuseamento do açúcar e na sua circulação pela cidade nos séculos XVIII e XIX. Essa investigação se dá no domínio das artes performativas, juntamente com uma rede local e internacional de colaboradores. Essa rede contribui com vozes e pontos de vista de diferentes locais geográficos, culturais e artísticos, direcionados para Gotemburgo. Isso proporciona uma abordagem relacional e pluralista da história. O projeto é simultaneamente crítico e criativo: olha de forma crítica para as estruturas coloniais, ao mesmo tempo que procura transcender as narrativas coloniais do mundo. 

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O envolvimento da Suécia no tráfico transatlântico de escravos foi durante muito tempo praticamente invisível na historiografia pública. Recentemente, o envolvimento direto da Suécia no comércio de escravos na ilha de São Bartolomeu começou a ser discutido, mas uma grande parte da história colonial da Suécia continua por processar esse envolvimento – ainda com uma grande falta de investigação nessa área. Historicamente, a importação de açúcar pela Suécia esteve “pouco” relacionada com o comércio de pessoas escravizadas, uma vez que as importações eram em grande parte canalizadas através de outros países europeus. Mas esse comércio cresceu nas primeiras décadas do século XIX, especialmente durante a guerra de 1812-1814, graças à tolerância das autoridades suecas. E, além dos cativos, circulavam mercadorias como armas e metais suecos. 

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O comércio de açúcar serviu para manter uma economia de escravatura. Várias famílias fizeram fortuna com o comércio colonial de açúcar em Gotemburgo e noutros locais, condições que criaram a base para a cultura do patronato de Gotemburgo e as suas manifestações na cidade até aos dias de hoje. 

Na história do açúcar, o desejo e a violência encontram-se. A conveniência do açúcar na Europa tornou-se um sucesso econômico para alguns e o açúcar bruto foi enviado para os portos de Gotemburgo, a partir de carregamentos do Brasil e do Caribe. Neste projeto, concentro-me no manuseamento do açúcar, desde a sua viagem através do porto de Gotemburgo até a cidade. Que mãos manusearam este açúcar e através de que coreografias sociais? Através de métodos críticos e criativos e de pesquisa em arquivo, o material será recriado através de práticas artísticas corporais, site-specifc e das artes performativas, desenvolvendo novas narrativas e perspectivas sobre situações históricas. Aqui, o açúcar é filtrado como performance e prazer, como trabalho corporal e risco, e como movimento através da cidade, onde um lugar leva a outros lugares. O projeto trabalha com uma metodologia centrada no corpo, que de forma associativa e deambulatória move-se entre várias localidades, camadas temporais e perspectivas coexistentes. A ideia é estabelecer ligações inesperadas, sobreposições e emaranhados, para que possam surgir novas histórias sobre o passado e o presente colonial de Gotemburgo.
Cecilia Lagerström

Entanglements of the Plantation

Filme documentário | Pesquisa e Criação: Walmeri Ribeiro e Sofia Mussolin | Ribeirão Preto | Brasil | 2024

De Mar a Mar

 

De mar a mar parte de uma investigação dos caminhos do açúcar no Brasil, não apenas no passado, mas nos dias atuais. Como parte do projeto, realizamos um mapeamento performativo em plantações de cana-de-açúcar e refinarias na região de Ribeirão Preto/SP, maior produtora de cana-de-açúcar no Brasil desde a década de 70. Isso nos levou ao encontro com famílias de ex-boias-frias e pesquisadores da região. 

Mergulhamos em imagens e materiais de arquivos sobre a produção de cana-de-açúcar no Brasil nos séculos XVIII e XIX, sobretudo nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Um mergulho no período colonial do Brasil e, como não poderia deixar de ser, no intenso período da escravidão. O livro Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, nos ajudou a traçar caminhos performativos e nos acompanhou até Gotemburgo, na Suécia.

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Durante o período de residência artística, em Gotemburgo, percorremos os territórios e as narrativas levantadas por Cecília, criando cruzamentos e propondo diálogos.

Traces of Sugar

Traces of Sugar

Performance e Videoinstalação | Performance e Pesquisa: Walmeri Ribeiro | Imagens: Nathalie Fari e Sofia Mussolin Montagem e Finalização: Nathalie Fari | Objeto/Cerâmica: Marilen Rauch | Gotemburgo | Suécia | 2024

Traces of Sugar é um dos desdobramentos das ações performativas de pesquisa realizadas por Walmeri Ribeiro, em dois sites da cidade de Gotemburgo: Klippan, zona portuária da cidade, onde se localizava uma das usinas de beneficiamento de açúcar e onde uma vila – com escola, igreja e casas – foi construída para os empregados da usina; e Brunnsparken, que abrigava  uma  das usinas da cidade, onde hoje está localizada a praça central de Gotemburgo, cercada de shoppings, restaurantes e o hotel, localizado no prédio da antiga usina. Durante quarenta dias, a artista percorreu e permaneceu nos dois sites, realizando percursos com açúcar e conectando histórias dos portos e usinas do Brasil e de Gotemburgo, assim como histórias de vida e trabalho, conversando com transeuntes e moradores.

Arapuca

Instalação sonora e olfativa | criação: Sofia Mussolin | Gotemburgo | Suécia | 2014

A instalação Arapuca nasce da sobreposição de tempos, territórios e histórias invisibilizadas, conectando Gotemburgo e Ribeirão Preto. Inspirada na armadilha indígena de mesmo nome, e que tornou-se expressão de largo uso no Brasil para referir-se a situação traiçoeira, a artista construiu a estrutura com cana-de-açúcar seca, bambu e galhos, inserindo como isca o cheiro da vinhaça (subproduto da destilação da cana) e sons das plantations. 

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Esses elementos transportam para o espaço expositivo a experiência sensorial de Ribeirão Preto, maior produtora de cana do mundo: uma imensidão de monocultura que rodeia a cidade e toma conta do solo, da água e do ar. As queimadas nas plantações avançam mais com o tempo seco agravado pela mudança climática, deixando o céu vermelho, com chuva de fagulhas pretas e um perigo invisível no ar. 

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Instalada em Brunnsparken — local que já abrigou uma fábrica de açúcar — a obra cria uma ponte entre o passado colonial e o presente neocapitalista. Mais do que cicatriz, no Brasil o açúcar permanece como signo vivo que molda cotidianos e relações de poder. A Arapuca simboliza, assim, a armadilha histórica em que o Brasil, e em particular Ribeirão Preto, seguem presos: entre heranças coloniais e a exploração contemporânea dos processos produtivos, quem está na arapuca?

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Dessa pesquisa também se desdobrou os subcapítulos “A molécula que opera a máquina” e “Arapuca”, da tese “Fermentar o corpo, o território e a imagem: a prática artística como composto situado no Antropoceno” (PPGCA/UFF), de Sofia Mussolin com orientação de Walmeri Ribeiro. 

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As obras Emaranhados da plantação/Entanglements of the Plantation e Traces of Sugar, comporão a exposição Sugar Games, de Cecilia Lagerström, com abertura em novembro de 2026, na galeria Vaningen Klippan, Gotemburgo, Suécia.

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http://www.artes.uff.br/ppgca/pdfTesesDissertacoes/D060.220.011_SOFIA_GENTIL_MUSSOLIN.pdf

Financiamento

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